Rival do Atlético-MG, Cienciano já viveu milagre, mas acabou rebaixado

Local de Cienciano-PER e Atlético-MG pela CONMEBOL Sul-Americana, nesta terça-feira (1º), Cusco é uma cidade mágica. Foi capital do Império Inca, uma das principais cidades do vice-reino do Peru durante a colonização espanhola e é um dos locais mais visitados por turistas no continente, um museu a céu aberto. O futebol nunca foi uma de suas atrações. Mas há 22 anos, um clube local entrou para a história ao se transformar no primeiro (e até hoje único) do Peru a levantar uma Copa Internacional. E foi justamente a Sul-Americana. Foi uma campanha completamente inesperada. Uma verdadeira zebra internacional. Como um time que não tinha glórias em seu próprio país alcançou este feito histórico? Seria possível sem a magia Inca?

Fundado em 1901, pelo missionário inglês William Newell e alunos do Colégio Nacional de Ciências (daí o nome do time), o Cienciano acumulou títulos na liga regional – onde atuou por várias décadas antes de se profissionalizar, em 1973. Só então passou a disputar o campeonato nacional, sem grande destaque.

Na virada do ano 2000, o engenheiro agrônomo e deputado Juvenal Silva era presidente do clube. Ele queria fazer do ano do centenário um marco na história do Cienciano e decidiu, então, investir alto (um dinheiro que não tinha) na montagem de uma equipe forte para os padrões locais.

Dentro de campo o plano deu certo, o Cienciano conquistou seu primeiro título nacional: o Torneo Clausura de 2001. E conseguiu, assim, uma vaga na Libertadores de 2002. Na maior competição do continente, ganhou todos os jogos que disputou em casa (Cusco fica a 3.400m de altura) na fase de grupos e passou às oitavas, quando foi eliminado pelo América do México. Uma boa campanha.

Aquele time caro também conseguiu classificação para a Copa Sul-americana de 2003. Houve mudanças no elenco, que ficou um pouco mais barato. O goleiro Ibañez, hoje técnico da seleção peruana; o meia Bazalar; o zagueiro Acasiete e o artilheiro Carty formavam a base do time dirigido por Freddy Ternero, que estava em sua segunda passagem pelo clube.

Nada indicava que eles tinham alguma chance naquela novíssima competição, que estava em sua segunda edição. É importante destacar duas grandes diferenças em relação ao regulamento atual. Na época, a Libertadores era disputada no primeiro semestre e a Sul-americana, no segundo. Isso permitia que um mesmo time disputasse as duas competições, o que era péssimo para o Cienciano. Por outro lado, não havia fase de grupos. Era uma Copa toda realizada em ‘mata-mata’, o que era bom para o time de Cusco. O regulamento também indicava que as fases iniciais eram ‘nacionais’ e, nela, o Cienciano superou o Sporting Cristal e depois o Alianza Lima, sempre como azarão, para alcançar as oitavas de final.

O primeiro visitante internacional foi a Universidad Católica, do Chile. ‘Los Cruzados’ sentiram o peso da altitude e foram goleados por 4 a 0, o que fez de nada adiantar aos chilenos a vitória por 3 a 1 em Santiago. Ainda sem acreditar, o Cienciano desembarcou em Santos para enfrentar o poderoso campeão brasileiro, de Robinho, Diego e cia. O Peixe martelou o tempo todo, mas alguma coisa impedia a bola de entrar. Na única chance do Cienciano, o zagueiro Alex marcou contra, de cabeça. Robinho ainda empatou na Vila, mas o jogo de volta era na mágica cidade dos Andes. Com dois gols de Carty contra um de Elano, o time da casa passou às quartas de final.

O adversário seguinte era o Atlético Nacional, da Colômbia, que vinha embalado após eliminar o Boca Juniors de Carlos Bianchi, campeão da CONMEBOL Libertadores, com um placar agregado de 5 a 1. O Cienciano, que mais uma vez era a zebra, ganhou os dois jogos e chegou à grande final. Parecia que tinha alcançado o seu máximo. Perder para o tradicional e gigante River Plate parecia honroso. Ainda mais por do outro outro estar um time comandado por Manuel Pellegrini e que tinha em campo Gallardo, Lucho González, Marcelo Salas e Maxi López, entre outros.

Foi duríssimo, mas o espírito Inca não deixou o Cienciano se entregar. Era preciso voltar com um bom resultado de Buenos Aires. Para os Millonarios, além do título, ganhar a Sul-Americana era uma resposta à vitória do Boca na Libertadores e a chance de vencer seu rival na Recopa. Por isso, a torcida do River fez a pressão de sempre, com fogos de artifício, fumaça e muito papel picado em vermelho e branco – cores que por acaso também identificam o Cienciano.

Foi em meio a um mar destes pedaços de papel que Acasiete abriu o placar para o time peruano. Mas o River virou com dois gols de Maxi López. Os guerreiros Incas, sempre usando a bola aérea como principal arma, remontaram para 3 a 2. No final, o astro chileno Marcelo Salas deixou tudo igual: 3 a 3. Ao Cienciano, bastava ganhar em casa para fazer história.

Mas nada foi fácil. O regulamento exigia um estádio com capacidade para 40 mil pessoas na final e o ‘Inca Garcilaso de la Veja’, em Cusco, só comportava 28 mil. Sim, o jogo mais importante da história do Cienciano foi no campo de seu maior rival, o Melgar, na cidade de Arequipa (mil metros mais embaixo em relação ao nível do mar).

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O Cienciano foi abraçado pelo povo peruano que não só lotou o estádio, mas também as principais praças de Arequipa e Cusco. O primeiro tempo foi dominado pelo River, mas terminou sem gols. O técnico Freddy Ternero fez então um duro chamado a seus jogadores no intervalo. Na volta, o zagueiro paraguaio Lugo marcou, de falta, o gol do título. Para o extremo delírio da torcida peruana, em vários lugares do país.

Este time ainda faria história no ano seguinte. Do outro lado, o então campeão do mundo – Boca Juniors. A Recopa foi disputada em Fort Laudardale, nos Estados Unidos. Após empate por 1 a 1, o Cienciano se aproveitou dos pênaltis perdidos por Tevez e Vargas; não desperdiçou nenhuma de suas cobranças e levantou a segunda taça internacional do futebol peruano. É até hoje o único clube peruano com conquistas que ultrapassam suas fronteiras.

Neste embalo, o Cienciano ainda conseguiu outros troféus locais: um Apertura, um Clausura e dois vices, entre 2005 e 2007. Participou da Libertadores por cinco anos consecutivos. Mas a realidade bateu à porta. O clube não tinha sustentação econômica para manter um time forte por tanto tempo. As dívidas começaram a se acumular. Os elencos foram enfraquecendo. Até que o presidente Juvenal Silva renunciou. O sonho desmoronou.

O Cienciano passou por intervenção de uma junta diretiva e acabou sendo rebaixado no Campeonato Peruano. Passou quatro temporadas na segunda divisão até que em 2020 voltou a integrar a elite do futebol peruano. Agora, depois de 16 anos, o clube retorna à Copa Sul-americana, competição que marcou sua trajetória. A magia Inca será capaz de um novo milagre?

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