Um dos grandes destaques da temporada da Premier League, o zagueiro Murillo vive fase espetacular. De contrato renovado com o Nottingham Forest até 2029, ele foi convocado pela seleção brasileira e, nesta terça-feira (25), será uma das opções do técnico Dorival Júnior para enfrentar a Argentina, pelas eliminatórias da Copa 2026.
Em entrevista exclusiva à ESPN, o defensor de 22 anos deu detalhes de todo o esforço que teve que fazer para conseguir competir fisicamente no Campeonato Inglês, depois de chegar ainda muito jovem do Corinthians.
De acordo com o atleta, ele ouviu do então técnico Steve Cooper que precisaria de até três meses para estar apto a disputar os acirrado duelos da liga britânica. Murillo, porém, resolveu “acelerar” as coisas – e com grande sucesso.
“Lembro que, quando eu cheguei, era muito complicado. Era muito jogo de contato, os zagueiros, o pessoal era muito forte. Eu falei: ‘Mano, vou sofrer aqui'”, recordou.
“Eu lembro que fomos para o jogo contra o Manchester City e eu fui cortado no hotel. O treinador chegou para mim e falou: ‘Você vem treinando bem, desempenhando bem, para você pegar o ritmo, se adaptar, ganhar a força necessária que você precisa ganhar, vai demorar uns dois, três meses para você jogar’. Eu olhei, escutei e saí. Pensei comigo mesmo: ‘Dois, três meses? Nem ferrando que eu vou esperar’. Aí eu falei: ‘Vou acelerar o processo'”, relatou.
“Comecei a treinar dentro e fora do clube. Eu tenho um personal, acho que é essencial para todo o atleta. Você treinar o primeiro período com um personal, fora, para treinar o segundo período, o complemento que você faz no clube. É essencial para um atleta de alto nível. Comecei a treinar dentro do clube, chegava, aí ia treinar com o personal. Comecei a evoluir, precisava evoluir fora, ficar forte, ficar mais preparado, e pensava: ‘Dentro de campo qualidade é comigo’. Dito e feito”, exaltou.
“Ele (treinador) falou isso comigo dia 10 de setembro. No dia 1° de outubro, nós iríamos jogar contra o Brentford e o treinador me falou: ‘Você vai jogar’. ‘Vou jogar?’; ‘Vai! O Brentford é um time assim e tal, e eu preciso de você, preciso da sua qualidade, das suas bolas longas’. Eu falei: ‘Estou preparado para o jogo'”, contou.
“Foi a mesma coisa que aconteceu no Corinthians: depois que eu joguei não saí mais. Quando você sempre está preparado, quando a oportunidade aparecer, eu sempre falava: ‘Eu vou jogar e não vou sair mais’, falei para os meus empresários. Quando eu tiver a oportunidade, eu vou jogar e não vou sair mais. Sempre tive isso na cabeça. E graças a Deus, pelos dois clubes que joguei até agora no profissional, aconteceu isso (risos)”, brincou.
“Eu estou jogando tão bem assim?”
E por falar no Timão, Murillo também rememorou como foi sua chegada ao Parque São Jorge.
De acordo com o zagueiro, a equipe do Parque São Jorge se interessou por ele mesmo depois de venceu seu time por 4 a 0.
“Eu joguei sub-17, o sub-16 pelo União Barbarense, no Campeonato Paulista. E tem fases, tem a primeira fase, e na terceira fase jogamos contra o Corinthians. O nosso grupo era União Barbarense, Amparo, Ituano e Corinthians. Jogamos e fizemos dois jogos, nesses dois jogos eu fui muito bem e fui considerado o melhor jogador em um jogo, e no outro não porque perdemos de 4 a 0, mas fui considerado o melhor do meu time”, lembrou.
“Depois desse jogo, fomos eliminados. Só que aí o treinador do União Barbarense, que era o meu empresário na época, me falou: ‘O pessoal do Corinthians veio, está interessado em você. Acho que você vai para lá, vou tentar fazer uma transação para você ir’. Falei: ‘Sério, Corinthians?’. Mas ele falou que não tinha só o Corinthians, tinham também o São Paulo e o Santos. Eu perguntei: ‘Estou jogando tão bem assim?’, e ele falou: ‘Pior que está'”, seguiu.
“Por incrível que pareça, não deu certo no São Paulo, no Santos, e ficou só o Corinthians. No Corinthians ainda bateu na trave, mas deu certo. Entrei no Corinthians no ano seguinte, no sub-17, lembro até a época. Entrei, fiz esse ano todo, joguei mais no sub-20 do que no sub-17, com 16 anos. No dia 4 de julho completei 17, mas jogava mais no sub-20 do que no sub-17. Jogava alguns jogos no sub-17 quando era semifinal”, contou, antes de se emocionar ao lembrar de seu pai.
“Sabe o mais engraçado? Isso foi o que mais me fez lembrar, refletir. Ele estava presente em todos os momentos. Eu estava para renovar o meu contrato (com o Corinthians), e o meu contrato não saía. Eu cheguei dia 4 de março, eu só treinava porque não tinha contrato. Eu lembro que dia 3 de junho eu assinei o meu primeiro contrato como profissional com o Corinthians. Dia 3 junho era aniversário do meu pai. Eu pensei: ‘Caraca, ele está comigo'”, recordou.
“Eu lembro que assinando, eu olhei para o meu empresário e falei ‘que dia é hoje?’. Ele falou ‘3 de junho’. ‘Mentira’. Meu pai era corintiano, sempre falei que ia jogar no Corinthians, ele sempre acreditou em mim. Estou assinando contrato no dia do aniversário dele”, completou.
“Virou a casaca” pelo Corinthians
Apesar de ter jogado bastante pelo sub-17 e pelo sub-20 do Corinthians, a passagem de Murillo pelo profissional alvinegro foi muito rápida.
Promovido ao elenco adulto em 2023, ele realizou apenas 27 jogos antes de ser negociado com o Nottingham Forest.
Hoje muito identificado com o Timão e com a torcida do clube, o defensor revelou à ESPN que “virou a casaca” na infância, já que torcida para o São Paulo.
O responsável por fazer Murillo mudar de time foi ninguém menos que Ronaldo “Fenômeno”, com o famoso gol de “cavadinha” em cima do Santos, no Paulistão 2009.
“Eu vou falar uma verdade aqui: até os meus 8, 9 anos, eu era são-paulino. Meu pai sabia. Inclusive, quando jogavam Corinthians e São Paulo, na maioria das vezes o Corinthians ganhava, ele sempre me zoava, eu ficava bravo, chorava, saía correndo e me trancava no quarto. Eu ficava muito bravo (risos)”, gargalhou.
“Eu pensei melhor assistindo a Corinthians x Santos, que o Ronaldo fez o gol de cobertura no Fábio Costa. A lembrança é muito fértil: quando ele deu a ‘cavadinha’, eu corri, tinha um bar na minha rua, saí do bar, fui na casa do meu pai, tirei a camisa que eu estava e coloquei a camisa do Corinthians. Todo mundo olhou para mim, eu pequenininho, e falei ‘a partir de hoje sou corintiano'”, relatou.
“Todo mundo gritou. Depois daquele momento, foi Corinthians na veia. O Ronaldo me fez virar corintiano depois daquele gol… É um time muito vitorioso, tem muita garra, muita força de vontade. Eu pensava naquele momento: quero jogar um dia nesse clube. Quero um dia sentir o que é ser Corinthians. Com 9, 8 anos de idade. Lembro que falei para o meu pai: ‘quero jogar um dia no Corinthians'”, finalizou.